
Peças aparentemente inofensivas como tubulação de água e acessórios de bicicleta podem ser usadas para a criação de instrumentos letais nas mãos erradas. Em oficinas improvisadas, artesãos conhecidos como “armeiros” montam, soldam e fabricam pistolas e espingardas que aumentam o poder de fogo de facções criminosas no Rio Grande do Norte. Em cinco reportagens, o Portal OP9 vai discutir o problema. Na primeira matéria da série “Senhores das Armas”, confira os números que preocupam a polícia potiguar.

A cada semana, duas armas artesanais são apreendidas em média na Região Metropolitana de Natal. Nos dez primeiros meses de 2019, a quantidade recolhida pela polícia do Rio Grande do Norte de revólveres, pistolas e espingardas produzidas em oficinas improvisadas já é maior do que o total registrado em 2014, 2015, 2016 e 2017.
De cada 10 armas apreendidas no Rio Grande do Norte, uma é artesanal. Até outubro deste ano, a Polícia Militar retirou 581 armas de fogo — industriais e caseiras — de circulação nos 15 municípios da Grande Natal.
O crescimento deste tipo de arma em circulação no estado coincide com a guerra travada pelas facções criminosas. Nos últimos cinco anos, de 2014 a 2018, as apreensões de armas artesanais na Grande Natal cresceram 505%. Em 2014, 20 peças do tipo foram recolhidas. Em 2018, o registro subiu para 121.
Se o ritmo se mantiver, a estimativa é que este ano feche com 110 armas apreendidas. Um número que é apenas uma amostra. O crescimento das apreensões e sua concentração na Região Metropolitana indicam um mercado estabelecido, o que se tornou uma preocupação das polícias.
Geralmente esse tipo de armamento é fabricado por ferreiros e serralheiros em zonas rurais. Com métodos rudimentares e arcaicos, os “armeiros” colocam em risco a própria segurança durante o processo de produção. Além do óbvio perigo para os alvos dos criminosos, as armas ameaçam a vida de quem as utiliza.
Os responsáveis por produzirem ilegalmente esses artefatos utilizam peças de sucata, barras de ferro, molas, solda, canos, fitas e pedaços de madeira para montar revólveres, espingardas, garruchas, submetralhadoras e pistolas de diversos calibres

Para efetuar disparos, os criminosos utilizam munições industriais ou balas forjadas em oficinas ilícitas com chumbo, ferro e pólvora. Em termos de letalidade, as armas artesanais provocam o mesmo efeito das fabricadas em série.
Chamadas de caseiras, feitas com canos de ferro, peças de bicicleta e o que cair na mão dos armeiros, elas deixaram de ser usadas apenas na caça de passarinhos e animais de pequeno porte no interior do estado. Agora matam gente nas zonas urbanas.
“As pessoas não devem subestimar essas armas, não é porque elas parecem um guidão de bicicleta que elas não matam. Matam sim”, alerta o delegado-geral adjunto de Polícia Civil, Odilon Teodósio. No mercado clandestino, essas armas caseiras são vendidas por cerca de R$ 200. Valor 15 vezes menor comparado ao preço de uma pistola profissional.

O poder de fogo também é atestado por analistas do Instituto Técnico-Científico de Perícia (Itep). “Perfuração no ápice cardíaco; encontrado balins no interior das câmaras cardíacas. Perfuração no lobo direito do fígado. Ferimento no baço. Ferimento no intestino delgado”, diz laudo cadavérico de um homem, de 37 anos, morto em assalto após ser atingido por um disparo de arma artesanal em setembro de 2018, na Grande Natal.
Os números da Grande Natal são – de acordo com as autoridades – representativos do Rio Grande do Norte. Isso porque não existe ainda um levantamento detalhado que abranja o estado e as apreensões no interior são consideradas incipientes.
De acordo com o pesquisador da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análise Criminal (Coine) da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa Social, Ivenio Hermes, que há anos estuda a problemática da violência no RN, a questão das armas artesanais tem tido uma atenção maior dos policiais, devido ao problema que se tornou.
É comum hoje na Região Metropolitana assaltos e confrontos com policiais nos quais os criminosos usam armas manufaturadas. Segundo Ivenio, o problema vai além do uso.
“Temos que levar em consideração o ponto de vista da produção. A pessoa que utiliza esse instrumento artesanal não se sentirá inibida pelas apreensões já feitas e continuará a fabricá-los”, explica.
Na análise da Polícia Militar do RN, o aumento verificado nos últimos anos é preocupante, mas está de acordo com as ações de diminuição das atividades ilícitas e denota a eficácia das políticas de fiscalização.
OP9
