
As canetas emagrecedoras revolucionam mais do que a perda de peso. Elas transformam a relação com o corpo. O peso fica sob controle. Mas e o resto? As histórias de pessoas que usam essas drogas e sentiram seus efeitos, para o bem e para o mal, ilustram os desafios da era dos corpos moldados por canetas, o que já se sabe e o que se precisa descobrir.
Os efeitos positivos e negativos vão bem além da perda de peso e o preço que não é pago só com dinheiro. Ele varia de acordo com características individuais e a forma como as canetas são usadas. Spoiler: o mau uso custa mais caro.
Quando vale a pena?

As amigas Maria e Natalia viram as canetas emagrecedoras transformarem a vida, para melhor. Conquistaram uma perda de peso que impressiona. Em três meses de caneta Mounjaro (tirzepatida, cuja patente não caiu), perderam mais de dez quilos cada uma. Mas isso não sem sofrer efeitos colaterais.
Mas ambas adoram o resultado da caneta. Estão de bem com o espelho e felizes com exames médicos favoráveis — Maria era pré-diabética. Porém, planejam trocar de caneta. Não pelos efeitos adversos. E sim pelo preço elevado. Como milhões de pessoas, esperam ansiosas por novas versões mais baratas da semaglutida, após a queda da patente.
Maria Odete Ramim, de 43 anos, teve dor de cabeça, mal-estar, letargia, indigestão, enjoo e episódios alternados de prisão de ventre e diarreia. De início, não aguentava nem sair do sofá. Natalia Batista, de 20 anos, sofreu com vômitos, indigestão e diarreia. E tinha permanente letargia.
Mas as duas amigas estão satisfeitas com o emagrecimento. Tinham recomendação médica, fizeram tudo certo e superaram os problemas.
— Fui criada por “avó”, mimada. Adoro comer de tudo, coisas que engordam. Para piorar, sou sedentária e trabalho sentada. Amo cozinhar e nunca consegui seguir uma dieta. A caneta mudou isso — diz Maria, que só resolveu fazer o tratamento depois que ficou pré-diabética.
A família dela é amiga da de Natalia e fazer “invenções” na cozinha era um programa frequente. Não mais.
— Sempre fui meio gordinha, mas também muito ativa, gosto de dançar, de exercício. Mas não conseguia seguir uma dieta. Sei que obesidade é uma doença crônica, a caneta me ajuda muito. Me deixa confortável com minha imagem — afirma Natalia.
Quando há risco?

O risco costuma vir acompanhado da falta de orientação e informação. Lourdes Costa, de 60 anos, passou a ver sombras, como pequenas cobras, um efeito semelhante ao de quem sofre descolamento de retina, poucas semanas após começar a usar canetas com semaglutida (Wegovy). Se a balança passou a trazer alegria em vez de preocupação, a “companhia” frequente das cobrinhas a assombrava.
E há coisas piores. Para Geisa Freitas, de 35 anos, o uso sem orientação da caneta emagrecedora custou uma semana no hospital, com graves complicações na vesícula e no pâncreas. Ela precisou interromper o uso, com pancreatite e pedra vesícula. Geisa já tinha problemas prévios na vesícula e não poderia ter usado uma caneta na situação em que se encontrava.
Porque tem risco?

Essas histórias são situações distintas que revelam muito sobre possíveis efeitos adversos. E evidenciam um fato que muita gente teima em ignorar: as canetas são medicamentos. Não existe remédio sem risco de efeito colateral e contraindicação.
A literatura científica identifica mais de 100 possíveis efeitos colaterais relacionados às drogas agonistas de GLP-1, como a semaglutida das canetas. Porém, a esmagadora maioria é leve, mostram estudos. Cerca de 50% dos pacientes apresentam problemas comuns e leves, como náusea, diarreia e constipação. Eles melhoram com o tempo. E quase sempre estão relacionados à adaptação do metabolismo aos efeitos dos medicamentos.
Efeitos moderados, como cálculos biliares, entupimento do intestino, podem afetar até 5% dos pacientes, mas costumam ser casos de solução com a troca da droga.
Já os casos graves são raros. Exemplos são pancreatite, ideação suicida e neuropatia respondem por menos de 1%, segundo estudos.
— As canetas são muito seguras e a maior parte dos efeitos é branda. É gastrointestinal. Casos graves são muito raros e, quase sempre, estão associados à falta de orientação médica adequada, contraindicações prévias, uso errado, seja na dosagem, na frequência — assegura João Salles, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Semaglutida (Ozempic/Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) são drogas novas. Como em qualquer novo remédio, efeitos até então desconhecidos podem surgir à medida que mais pessoas tomam.
Todos esses medicamentos seguem em fase 4 de estudos, a de longo prazo, por mais de dez anos e em grandes grupos populacionais. Isso é praxe em novas drogas e o motivo é justamente avaliar esses efeitos, explica Lício Velloso, especialista em obesidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O balanço dos médicos é que se a pessoa tem obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, gordura no fígado, problemas decorrentes do peso em excesso e se prepara adequadamente para usar as canetas, elas valem a pena.
— Os efeitos colaterais mais frequentes são os gastrointestinais, como enjoo, diarreia ou prisão de ventre. São problemas leves ou moderados que não levam à interrupção do tratamento. Só num percentual pequeno de pacientes que recebe orientação médica haverá realmente interrupção do uso. Em geral, o médico saberá manejar a situação e encontrar alternativas — diz o endocrinologista Roberto Zagury.
Sinais de alerta

Lourdes ficou assustada, mas as cobrinhas sumiram após algum tempo e ela prossegue com a caneta porque está animada por ter conseguido emagrecer pela primeira vez na vida. Mas Lourdes não foi alertada pelo médico de que isso poderia ocorrer, embora distúrbios oftalmológicos estejam na lista dos possíveis efeitos colaterais.
Os distúrbios de visão estão entre os efeitos em estudo, de mecanismos ainda pouco compreendidos, dizem especialistas, como o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo.
— Existem alguns possíveis efeitos na visão. Há casos mais raros e graves de neuropatias óticas. Se supõe que possam ter relação com alguma alteração na pressão. Por isso, caneta precisa de acompanhamento — alerta
Já Geisa procurou um médico somente para conseguir a receita para comprar a caneta. Ele não lhe pediu exames nem lhe questionou sobre problemas na vesícula, uma conhecida contraindicação para o uso dessa classe de medicamento.
— É preciso buscar sempre orientação de um médico que seja ético, não esteja só interessado em receitar canetas. Antes de começar tem que fazer exames, analisar histórico. A relação risco-benefício é excelente a favor das canetas. Mas isso só vale para quem faz uso sob orientação médica e com uso clinicamente justificável e não por mero desejo estético — adverte Salles.
O que diz a balança de risco e benefício
A despeito dos efeitos colaterais, a relação entre risco e benefício é amplamente favorável às canetas emagrecedoras, quando usadas sob orientação médica.
Cientistas da Universidade McGill, no Canadá, fizeram uma revisão qualitativa sobre o assunto. Eles analisaram dados dos grandes estudos sobre a segurança e a efetividade das drogas, como os SELECT, FLOW, STEP-HFpEF, ESSENCE, PIONEER 6, com 112 referências de pesquisas. A balança pende a favor das canetas, mas os cientistas salientam a necessidade de acompanhar a evolução a longo prazo porque se tratam de novos medicamentos.
A revisão foi publicada em 2025, na revista e ClinicalMedicine, do prestigioso grupo Lancet. Outra revisão, na Nature Communications de janeiro de 2026, feita por pesquisadores da Universidade de Chengdu (China), traz resultados semelhantes.
Coração (Doenças Cardiovasculares)

Benefícios: Redução de eventos graves como infarto e AVC em pacientes com diabetes ou obesidade (estudos SELECT e outros mostram risco 20% menor); amenizam sintomas e capacidade física em insuficiência cardíaca.
Riscos: Nenhum risco específico destacado; perfil de segurança cardiovascular é positivo.
Rins (Doenças Renais)
Benefícios: Diminuem a albuminúria, protegem a função renal e reduzem complicações em diabetes ou doença renal crônica (estudo FLOW: risco 24% menor); baixa mortalidade e eventos renais graves em lesão renal aguda.
Riscos: Nenhum risco direto mencionado; benefícios superam potenciais preocupações.
Fígado (Doença Hepática Gordurosa/Metabólica)
Benefícios: Reduzem gordura no fígado, inflamação e fibrose (estudo ESSENCE: 63% eliminam a esteatose contra 34% do grupo placebo).
Riscos: Nenhum específico; benefícios ligados à perda de peso e à melhora metabólica.
Cérebro e Nervos (Doenças Neurodegenerativas)
Benefícios: Melhoram sintomas motores na doença de Parkinson; não há consenso ainda se retardam declínio cognitivo e atrofia cerebral no mal de Alzheimer.
Riscos: Preocupações com saúde mental (ansiedade, depressão, ideação suicida reportadas, mas estudos grandes não confirmam até agora um risco maior).
Articulações (Osteoartrite no Joelho)
Benefícios: Reduzem a dor e melhoram a função física (estudo STEP-9).
Riscos: Nenhum destacado; benefícios via perda de peso, mas há um possível efeito anti-inflamatório direto.
Pulmões/Sono (Apneia Obstrutiva do Sono)
Benefícios: Diminuem a gravidade da apneia.
Riscos: Nenhum mencionado.
Sistema Reprodutivo (Síndrome dos Ovários Policísticos)
Benefícios: Melhoram a regularidade menstrual.
Riscos: Nenhum específico.
Riscos Gastrointestinais Gerais (Estômago, Vesícula)
Benefícios: Retardam o esvaziamento gástrico, ajudando no controle de apetite.
Riscos: Aumentam a chance de pedras na vesícula (27 eventos para cada 10.000 pacientes/ano) e doenças biliares. O risco de aspiração em cirurgias é baixo.
Pâncreas e Tireoide
Benefícios: Protegem as células do pâncreas produtoras de insulina.
Riscos: Os sinais iniciais de risco de pancreatite e câncer pancreático não foram confirmados por estudos grandes. Mas seguem contraindicadas para quem tem histórico familiar.
Uma revisão publicada semana passada na Nature Clinical Oncology, por um grupo da Universidade de Florença (Itália), afirma que não há dados, até o momento, para sustentar o risco de câncer do pâncreas associado às drogas. Nenhum estudo até o momento confirmou haver alguma relação. Porém, a mesma análise destaca que persiste a incerteza sobre o aumento do risco de câncer na tireoide.
Olhos (neuropatia ótica isquêmica)
Benefícios: Nenhum.
Riscos: Possível aumento do risco. Mas os dados são considerados inconsistentes e são necessários mais estudos.
Composição Corporal (Músculos)
Benefícios: Perda de peso total entre 15% a 20%.
Riscos: Só que 25% a 45% da perda vem de massa muscular, afetando a força em idosos. E dois terços do peso perdido são reganhados com a interrupção do uso.
Quais são os mistérios no cérebro?
Existem mecanismos e efeitos da ação das canetas com semaglutida e da tirzepatida que só serão conhecidos com o tempo. Seja porque são complexos seja porque não poderiam surgir de imediato.
Por serem novas, se torna impossível identificar os efeitos do uso prolongado. Porém, essas drogas atuam sobre o cérebro e é justamente sobre os mecanismos no sistema nervoso central que pairam as maiores incertezas.
Estudioso dos efeitos dos efeitos de hormônios no cérebro, José Donato Junior, chefe do Laboratório de Neuroendocrinologia e Metabolismo da Universidade de São Paulo (USP), diz que o momento é de reflexão.
As drogas semaglutida e tirzepatida “imitam” os efeitos de hormônios intestinais e agem de múltiplas formas. Hormônio são os mensageiros do corpo. São eles que, por exemplo, informam ao corpo que há comida suficiente, em excesso ou em falta.
— Essas drogas são uma revolução, no mesmo patamar dos coquetéis contra o HIV e o Viagra. São aliadas importantes contra a obesidade, uma doença perversa. Mas são remédios e ainda estamos aprendendo sobre eles. O uso em massa nos leva a fazer reflexões. As pessoas precisam entender que são medicamentos, não são isentos de risco. Não é só se espetar com uma caneta e esperar um milagre — afirma Donato.
As drogas sinalizam para o cérebro que a pessoa comeu e ele então cessa a sensação de fome. Mas, diferentemente do hormônio natural, o GLP-1, no caso da semaglutida, elas permanecem ativas por mais tempo no organismo. E é, a grosso modo, por isso que a sensação de saciedade é muito prolongada.
Elas atuam sobre o hipotálamo, o controlador-mestre do peso corporal. É o hipotálamo que capta o GLP-1 e diz para o corpo que há alimento suficiente.
Donato explica que o bulbo encefálico também é repleto de receptores de GLP-1. O bulbo, ou medula oblonga, é a parte mais inferior do tronco encefálico. É essencial para a vida. Ele regula funções vitais, incluindo respiração, frequência cardíaca, pressão arterial e deglutição. E isso inclui a área que controla o vômito.
Segundo Donato, os receptores de GLP-1 também já foram encontrados em neurônios associados à dopamina, o neurotransmissor ligado às sensações de prazer, satisfação, além do controle motor, memória, atenção e sono.
— Na verdade, não se conhecem bem esses mecanismos. Mas não é para interromper o tratamento por causa disso. São pontos de reflexão e estudo — enfatiza Donato.
Por que a comida perde a graça?

O neurocientista Mychael Lourenço, que ministra as aulas sobre sistema nervoso e agonistas de GLP-1 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), põe ênfase na complexidade da compreensão dos efeitos das drogas.
— De início se achava que a ação das canetas era periférica, hoje se sabe que atuam no hipotálamo, no córtex cerebral. Elas produzem uma indiferença à comida. Eliminam o chamado ruído alimentar, o pensamento recorrente em comer, tão comum em que engorda. Isso é ótima, são fantásticas. Mas estamos aprendendo como realmente funcionam — diz Lourenço.
As drogas produzem efeitos em cascata no corpo, remodelam o metabolismo. Em pessoas com obesidade, o organismo tem dificuldades de equilibrar o gasto energético, o metabolismo é deficiente. Mas esses medicamentos funcionam como carteiros mais eficientes do que os hormônios naturais. Sua mensagem persiste por mais tempo. E isso é bom para quem precisa perder peso e tem acompanhamento, acrescenta Lourenço.
— Efeitos desconhecidos sobre, sejam positivos ou negativos, podem ou não existir. A necessidade de investigar não pode ser ignorada. Mas não é motivo para deixar de usar as canetas — ponderam Lourenço.
Por própria conta e risco
Mas os cientistas desconhecem, por exemplo, os efeitos das canetas sobre corpos magros ou com peso na faixa de normalidade. Isso diz respeito a quem buscar perder alguns poucos quilos para caber num vestido, desfilar na praia.
A ciência simplesmente não sabe o que acontece com o corpo de alguém cujo metabolismo já opera de modo equilibrado, mas passa a receber mensagens para funcionar de forma diferente.
Se as canetas podem levar a desequilíbrio nessas pessoas e até fazê-las mais suscetíveis a engordar após algum tempo é uma questão em aberto.
— E isso não será estudado. Não teremos estudos assim porque não há finalidade terapêutica. Não seria ético. Esses remédios são feitos e investigados para quem realmente precisa deles, isto é, tem peso em excesso. E não para quem faz uso fora de bula — explica Bruno Gualamo, especialista em fisiologia e coordenador do Centro de Medicina do Estilo de Vida da USP.
O Globo
Esse texto foi copiado do Blog do Gustavo Negreiros. Para ter acesso completo a matéria acesse gustavonegreiros.com.br
