VEJA O VIDEO: Mulher de Macaíba que mandou matar marido lança livro relatando anos de violência doméstica - Informativo Atitude

VEJA O VIDEO: Mulher de Macaíba que mandou matar marido lança livro relatando anos de violência doméstica

A potiguar Amanda Karoline da Silva Cunha foi destaque hoje numa reportagem da revista Marie Clair, após ficar “famosa” no Brasil por ter sido preso por encomendar a morte do Marido. Amanda contou na reportagem que foi vítima, durante anos, de violência doméstica. O caso dela já foi mostrado no programa A Vida Como Ela É, assista no vídeo acima: 

Segundo o texto, Amanda tinha 12 anos quando conheceu o futuro marido, Rômulo Barbosa, e 15 quando se casaram. A potiguar de Macaíba, região metropolitana de Natal, conta que já no primeiro mês de matrimônio ocorreu a primeira agressão — e a violência teria se perpetuado sistematicamente durante os oito anos de relacionamento.

Foram inúmeras as agressões físicas, psicológicas e sexuais, diz Amanda, e, após Rômulo ameaçar matar a mãe e o sobrinho da então esposa, ela tomou uma decisão: contrataria um pistoleiro para executá-lo.

O crime foi cometido em 2016. Três meses depois, em dezembro daquele ano, Amanda aos 23 anos, foi presa por homicídio. “Tinha dado fim a um sofrimento e naquele momento começava outro”, relata em entrevista a Marie Claire. “Mas o sistema carcerário foi muito melhor do que estar com Rômulo.”.

A Justiça nunca reconheceu Amanda como vítima de violência doméstica e, no total, ela ficou cinco anos e três meses em regime fechado no Centro de Detenção Provisória de Parnamirim.

A revolta diante da sentença e o incentivo de uma agente penitenciária a fizeram escrever um livro autobiográfico, no qual conta seu passado com o então marido e a experiência no cárcere. A obra foi publicada e lançada em 2022, com apoio do Tribunal de Justiça do RN.

Desde março de 2022, Amanda cumpre a pena no regime semiaberto, com uso tornozeleira eletrônica.

Abaixo, o depoimento em detalhes da comerciante e agora escritora:

“Conheci Rômulo aos 12 anos, ele era primo do meu pai. Veio nos visitar, nos conhecemos e começamos a namorar. Meus pais não aceitavam no início, afinal ele tinha 21 anos e eu 12.

Quando completei 15 anos, meu pai descobriu que tínhamos feito sexo. Ele então nos obrigou a casar. E era tudo o que eu queria, era completamente apaixonada por Rômulo. Assim que casamos, ele me proibiu de continuar meus estudos, para cuidar da casa. Depois de um ano, comecei a trabalhar com ele com vendas.

No primeiro mês de casada, ele me bateu pela primeira vez. Rômulo me pediu um copo d’água, me neguei a pegar e ele então jogou uma sapateira em cima de mim. Joguei nele de volta e nessa hora ele me deu um tapa no rosto. Também foi a primeira das muitas vezes que ele se desculpou depois de me agredir e me pediu para não contar aos meus pais, porque senão eles me levariam para casa. Ingênua e apaixonada, não falei nada para ninguém.

As agressões só aumentaram: físicas, psicológicas e morais. Quando veio a violência sexual, eu tinha 18 anos. Estávamos em uma praia de nudismo em João Pessoa, na Paraíba. Um cara perguntou a Rômulo se ele fazia troca de casal. Ele falou que não aceitava, mas a curiosidade ficou na cabeça. E certo dia me obrigou a fazer sexo com um outro cara na frente dele, na praia mesmo. Para mim aquilo foi o fim. O amor acabou naquele dia.

Eu não queria fazer sexo com outro cara, disse isso e ele então começou a ameaçar a minha família. Disse que se eu contasse alguma coisa, mataria meus pais. O ciclo de violência ia aumentando. Você vai se afundando naquela violência, não vê mais saída.

Com 23 anos, eu treinava em uma academia, onde também se exercitava Rômulo e uma moça, que era amante dele. Ele fazia questão de me dizer que estava com outras. Me obrigava a ir para o motel com essa amante, inclusive. Um dia, nessa academia, a moça reparou que eu estava toda marcada. Rômulo tinha me dado uma surra de facão. Contei o que tinha acontecido e então ela me deu a ideia de mandar matar ele. Fui para casa com isso na cabeça, era a única forma do meu sofrimento acabar.

Rômulo me ameaçava de morte constantemente, mas não fiz nenhuma denúncia contra ele, nem boletim de ocorrência. O Estado dá muito estímulo para pouco resultado. Medida protetiva não protege ninguém. Já vi tanta história no jornal de mulher que denuncia e depois é morta… Uma vez comentei que denunciaria e ele me respondeu: ‘Aqui Maria da Penha não funciona’. Isso me calou. Ele disse que se eu fosse, quando voltasse ia ser pior. Me arrependo hoje por não ter feito denúncia porque isso me prejudicou no meu júri popular. Mesmo que fosse para pedir medida protetiva e depois mandar matar ele.

Rômulo era quem mandava em tudo, a última palavra tinha que ser dele. Não aceitava ser contrariado. A gente trabalhava com vendas e muitos clientes no interior atrasavam os pagamentos. Ele queria que eu pegasse peças de volta desses clientes, eu resistia a fazer isso e já era motivo para me agredir. Não tinha motivo para as agressões, era vontade mesmo.

Vieram mais abusos sexuais. Eu tinha que estar disponível sempre que ele quisesse. Na época, não achava que era violentada sexualmente por ele, mas hoje vejo que sim. Rômulo dizia que eu era mulher dele, então tinha que fazer quando ele quisesse. O sexo com pessoas desconhecidas na praia acontecia quase toda semana.

Sou a única filha mulher com dois irmãos. Então ele se preocupava muito em não me deixar hematomas. Mas teve uma vez que estávamos arrumando mercadoria, ele pegou um fio de cadeira e me deu uma chicotada. Entrei chorando no quarto e a mãe dele, que estava em casa, viu. Comecei a vomitar uma baba branca, espumava. A mãe ligou para um dos irmãos dele me levar para o hospital. Me diagnosticaram com gastrite nervosa. Não falei nada das agressões no hospital.

Dei um basta no meu sofrimento aos 23 anos. No dia 18 de agosto de 2016, Rômulo foi morto. Um mês depois que a amante dele me deu a ideia. Quando ela me falou, só fiquei com medo de ser descoberta, mas acreditei que era o fim do meu sofrimento. De uma forma foi, mas só pela metade. Como o crime saiu na mídia, as pessoas falavam que eu tinha mandado matar ele para ficar com os bens. Isso foi o que mais me chateou. Tudo o que a gente tinha era construção de uma relação de 10 anos, e estava quase tudo no meu nome. Isso me machucou mais do que a minha prisão – a forma como fui julgada pela sociedade hipócrita.

O assassinato aconteceu na frente da casa onde morávamos. A gente estava saindo para trabalhar de manhã, às 7h. Ele estava fechando a porta da garagem, o cara para quem encomendei a morte chegou e atirou nele no tórax e abdômen.

De certa forma, quem planejou aquilo foi Rômulo. Ele que me dizia como mandaria me executar, só peguei esse plano e inverti para ser ele a vítima. Ele me dizia: ‘Quando você estiver saindo de casa, cuidado para não levar tiro. Sou réu primário, pego cinco anos de prisão e saio’. E pensei: realmente, coloco um fim no meu sofrimento e cinco anos passam rápido, estou há 10 com ele.

Mas Rômulo não morreu na hora, eu prestei socorro e levei ele para a Unidade de Pronto Atendimento, em Macaíba (Rio Grande do Norte). Tive que fazer o papel de esposa, se não poderiam desconfiar.

Ele entrou na sala médica e fiquei no corredor. Quando me falaram que Rômulo estava bem e medicado, fiquei em choque. Pensei: quando ele sair daqui, vou morrer. Uma hora depois, veio a notícia da morte. A única sensação foi de alívio. Desde 2016, não fui mais ameaçada e nem agredida de nenhuma forma.

Custou cinco mil reais para mandar matar Rômulo. Dei a primeira parte, antes do crime, para a amante dele, no motel. Eu tinha guardado esse dinheiro para fugir e não para matá-lo. Mas um dia antes do crime, Rômulo ameaçou matar meu sobrinho e minha mãe. ‘Se você fugir, arranco dedo por dedo da sua mãe até ela me dizer onde você está’, ele falou. No momento em que fez isso, tirou a minha chance de liberdade e a dele de viver.

Fui para o velório do Rômulo, mas não queria ter ido. Por mim, estaria no shopping, na praia, em algum canto comemorando.

Centro de Detenção Provisória de Parnamirim. A mulher que me deu a ideia de mandar executá-lo foi na delegacia e contou tudo. Conseguiu a delação premiada e respondeu em liberdade.

Quando fui presa, acabava um sofrimento e começava outro. Fiquei revoltada, não aceitava aquela prisão. E tive que contar tudo para minha família, até então ninguém sabia que ele me agredia e nem que eu era a mandante da morte dele.

Mas o sistema prisional não foi nada do que imaginei. Apesar do sistema ser opressor, violento e não existir ressocialização depois, era muito mais leve do que estar com Rômulo.

Nunca sofri nenhum tipo de agressão na prisão. Logo de cara falei que tinha cometido um crime para sobreviver e faria de novo. Se abaixasse a cabeça, com medo, as pessoas montariam em cima.

Passei um ano e sete meses numa cela com 35 mulheres. Para dormir, colocávamos colchonetes no chão. Se não tivesse espaço, ficava na porta ou dentro do banheiro. Tinha horário limitado de água, uma hora para as 35 mulheres fazerem tudo, tomar banho, lavar louça, lavar roupa. A gente armazenava água para conseguir usar por mais tempo. A cela era muito quente, sem ventilação.

Depois desse período, fui convidada a trabalhar na unidade. Saí da cela e comecei a dividir com apenas uma interna, que também trabalhava. Tínhamos acesso a ventilador, televisão, hidratante, água ligada o dia todo e outras regalias. Eu fazia a limpeza do presídio e a outra era responsável pela cozinha. Fazia a comida dos agentes.

A pandemia foi o pior momento na prisão. Não podia ter contato com a família. A gente não sabia quem estava bem, mal, se alguém tinha morrido. Fiquei dois meses sem notícia, e depois, como trabalhava na unidade, os policiais passavam informação para mim. Também recebia cartas, que ficavam de quarentena até poderem me entregar.

Passei nove meses sem ver meu atual marido, porque ele é da Paraíba, e na pandemia ele não podia vir ao Rio Grande do Norte só para me deixar coisas e fazer todo o caminho de volta. Nos conhecíamos de antes, e ele me pediu em casamento na minha primeira semana presa. Estamos juntos até hoje.

Em 2018, fui a júri popular. Até hoje fico revoltada com minha sentença. Fui condenada a 20 anos em regime fechado. 19, porque fui réu confesso. A maioria dos homens são condenados a menos de 15 anos. Fui desacreditada porque não tinha feito medida protetiva. Teria me servido nesse aspecto.

Quando fui presa, meu pai procurou testemunhas, foi nos nossos clientes e achou uma moça. A cliente falou que tinha visto ele me bater na loja. Teve uma vez que Rômulo puxou um facão para mim na rua e eu entrei numa conveniência. O rapaz desse mercado também foi testemunha. Todos foram desacreditados. A Justiça nunca reconheceu que fui vítima de violência.

Uma policial viu minha revolta, pegou na minha mão e disse: ‘Acredito em você e está na hora de mudar sua história’. Me falou para escrever um livro e contar o que eu tinha passado. Disse que muitas mulheres passavam pelo mesmo. Pensei: ‘Se enfiei na cabeça a ideia de matar uma pessoa, por que não escrever um livro?’. Pedi autorização à diretora do presídio, para que minha família trouxesse papel e caneta. Ela mesma me deu os materiais e então passei um ano e oito meses escrevendo.

No final, com tudo pronto, entreguei para a policial que me incentivou a escrever. Ela disse que ia arrumar alguém para digitalizar, e que tinha um irmão publicitário que poderia nos ajudar. Ele pediu para ver o livro, e fez a arte da capa e as ilustrações. O livro ficou pronto, sem verba para publicar. A policial e a diretora foram ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, falaram com um juiz, apresentaram o livro e conseguimos fazer o lançamento. A publicação foi feita pelo próprio TJ.

Saí do presídio em março de 2022 e o livro foi publicado em maio do mesmo ano.

No total, fiquei 5 anos e 3 meses no regime fechado. Não acreditei quando coloquei o pé para fora. Cheguei de surpresa na casa dos meus pais. Estava anestesiada, não acreditava.

Saí no semi aberto com tornozeleira eletrônica e devo ficar com ela por mais três anos.

Quando sai, a gente não consegue arranjar emprego. O preconceito é muito grande, não tem como ressocializar se não tem apoio. O Estado não dá e nem a sociedade.

Já estava casada e fiz um comércio com meu marido, o mesmo em que trabalhava antes. E fui divulgar meu livro em praias, por incentivo do meu pai. Não sabia como vender meu livro, e ele falou para vender na praia, que conheceria muita gente que passou pelo mesmo. No primeiro dia, vendi 18 livros.

Se estou feliz? Sinto felicidade desde 2016, quando o crime aconteceu, e ainda hoje estou muito feliz.”

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