Só se aprende errando. Mas o quanto é ideal errar? 15%, diz estudo

“É errando que se aprende”, diz o ditado. E a ciência funciona exatamente assim: você propõe uma hipótese e depois realiza um experimento capaz de refutá-la ou confirmá-la. Mas quanto exatamente é preciso falhar antes de aprender? Será que, se errarmos demais, vamos nos desestimular e acabar chegando a lugar nenhum?

Um estudo recente realizado por pesquisadores dos Estados Unidos investigou a questão e obteve uma resposta matemática. Os cientistas partiram de um pressuposto que é senso comum entre educadores e pedagogos: o estudante precisa ser desafiado para que aprenda de verdade. Imagine colocar um aluno do nono ano para assistir uma aula que ensina a somar e subtrair. É fácil demais, então ele não vai extrair nada de novo dali.

Por outro lado, coloque-o para acompanhar uma aula de física quântica da universidade para ver o que acontece. Das duas, uma: ou vai errar 100% das coisas que o professor perguntar, ou a dificuldade será tamanha que o levará a desistir completamente do desafio. Isso se não pegar trauma da matéria. Fica claro que deve haver um meio-termo em que a nova tarefa ou conteúdo não seja nem tão simples, nem tão complicada.

A pesquisa descobriu que esse ponto ideal em que erramos apenas o suficiente para nos manter estimulados, mas sem nos deixar abater, é falhar 15% das vezes. Ou, na outra face da moeda, dar a resposta certa 85% do tempo – por isso a descoberta foi chamada de “Regra dos 85%”. Para chegar nela, os cientistas conduziram uma série de experimentos de machine learning em que computadores aprendiam sozinhos a executar certas tarefas simples.

Foram coisas como classificar padrões distintos em duas categorias ou então diferenciar números escritos à mão como sendo pares ou ímpares. E foi batata: os algoritmos tiveram o melhor aproveitamento no aprendizado sempre que acertavam 85% das vezes. Estudos prévios feitos com animais também revelaram a mesma taxa, e mesmo para os humanos a Regra dos 85% parece valer – principalmente para a chamada aprendizagem perceptiva.

Ela funciona quando aprendemos algo aos poucos e por conta própria, cimentado em nossas próprias experiências e exemplos. Como quando um médico radiologista está gravando em seu cérebro como identificar uma imagem em que aparece um tumor de uma em que não há tumor algum. Só o tempo e a prática irão ajudá-lo: ele precisa ganhar experiência e colecionar exemplos para aprimorar seu julgamento.

“Se eu dou exemplos fáceis demais, você vai acertar 100% das vezes e não há nada para aprender”, disse em comunicado o líder do estudo Robert Wilson, da Universidade do Arizona. “Se dou exemplos difíceis demais, estará correto 50% do tempo e ainda não vai estar aprendendo nada novo, enquanto que se eu der algo no meio-termo, você vai estar nesse ponto ideal em que extrai o máximo de informação de cada exemplo em particular”, disse o professor de psicologia e ciência cognitiva.

Mas muita calma antes de achar que tirar 8,5 numa prova é melhor do que 10. Wilson e seus colegas por enquanto só investigaram tarefas simples com respostas binárias: correto ou incorreto. Para aplicar os resultados em algo tão complexo como a educação, será preciso aprofundar e refinar o estudo, publicado nesta terça (5) na Nature Communications.

Wilson espera expandir o trabalho para abranger também formas mais complexas de aprendizado. “Se você está assistindo aulas fáceis demais e acertando tudo o tempo todo, provavelmente não está extraindo delas o mesmo que alguém com dificuldades, mas dando um jeito de acompanhar”, ele disse. Agora já dá para deixar aquela famosa expressão um pouco mais científica: “É errando 15% que se aprende”.

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