Presidentes da Capes e do CNPq apelam a deputados por mais verba para pesquisa

Foto: Audiência sobre verba para agências de pesquisa reuniu parlamentares, especialistas e interlocutores do governo / Lula Marques/PT na Câmara

O presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Anderson Correia, fez um apelo aos deputados, nesta quarta-feira (11), para que ampliem a verba destinada a pesquisas científicas em 2020. A entidade sofreu contingenciamento de R$ 819 milhões dos R$ 4,2 bilhões previstos para 2019.

“Esperamos que esta Casa apoie uma recomposição orçamentária para o ano que vem”, disse, na Câmara dos Deputados, em meio a um contexto de pressão popular e acadêmica sobre os parlamentares. A discussão sobre os cortes orçamentários na área de pesquisa envolveu especialistas, deputados e interlocutores do governo Bolsonaro (PSL).

A pauta da defesa da ciência e tecnologia tem ajudado a estimular a oposição ao presidente, assim como tem ocorrido com a bandeira da educação, também asfixiada pela agenda liderada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

A Capes mantém mais de 92 mil bolsas de pesquisa, entre mestrado, doutorado e outros níveis, em 3,6 mil programas de pós-graduação em todo o país. Correia afirma que hoje, no entanto, essa cadeia está comprometida devido ao contingenciamento, que levou a agência a investir em ações temporárias e emergenciais, com congelamento de bolsas, descontinuidade de programas, adiamento de projetos, entre outras medidas.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também afirma que vive um contexto difícil. O presidente, Manoel da Silva, conta que não há verba para pagar as bolsas dos pesquisadores a partir de outubro. Ao todo, cerca de 80 mil pesquisadores podem ser diretamente afetados.

Silva disse que o contingenciamento põe em xeque um elemento central para o desenvolvimento da ciência brasileira. “O CNPq atua em níveis 1, 2 3, ou seja, ele é a academia, o início de tudo. Se a gente não consegue fazer pesquisa básica, a gente não consegue desenvolver o produto. É assim no mundo todo. Então, é básico investir no nascedouro. É ali que nascem as ideias, os projetos. E o CNPq é importante também porque é a única agência de fomento que tem estrutura para operar em escala e em todo o território nacional, com todos os atores do sistema nacional de ciência e tecnologia”, argumentou o presidente da entidade.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, disse, em audiência na Comissão de Educação da Casa, que “não se sabe aonde vai parar o fundo do poço”. A entidade, que representa 144 sociedades científicas, expôs as dificuldades relacionadas à asfixia orçamentária imposta pelo governo e chamou atenção para a verba do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), que teve contingenciamento de 42% no orçamento este ano.

“O Brasil cresceu muito em produção científica nos últimos tempos, pode melhorar mais e deve fazer isso. Chegamos a um ponto importante na escala mundial. Estamos no 13º lugar, mas agora podemos cair”, alertou Moreira.

O presidente ressaltou que a falta de verba desencadeia um processo de desestímulo aos jovens que poderiam se interessar pela área científica.

“A evasão está crescente, e o desânimo que isso passa aos jovens é imenso. Seus sonhos estão ameaçados. Vale lembrar que, sem ciência básica, não tem desenvolvimento. No mundo inteiro é assim. Espero que os parlamentares se deem conta de que eles podem ajudar a mudar essa situação”, conclamou.

Os parlamentares lembraram que os cortes tendem a repercutir no cotidiano da população brasileira. “Temos visto a ascensão de uma era anticientífica. Esses cortes do governo afetam pesquisadores do Ministério da Saúde que têm feito pesquisa para criar uma vacina para chikungunya, que provavelmente vai parar”, exemplificou o deputado Professor Israel (PV-DF).

Brasil de Fato